domingo, 30 de agosto de 2009

ENTRE MIM


Inexoravelmente só, entre a acalmia de um dia tórrido e o tempo que teima em não se despegar.

No meu semblante, o sulco de mais uma vivência. Já não caminhamos em paralelo. Hoje, eu sei que tudo não passou de uma intercessão, como todas as restantes, dentro dos intervalos que as sinas nos reservam.

À noite, passado o brasedo de um dia que se arrastou pesado, deambulo imóvel na candura dos sonhos, olho o firmamento e cogito no deserto. Atento, então, no brilho das estrelas, numa noite sem lua, em que o breu se imiscui com sombras subtis e ruídos ilegíveis.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

LEVE



Na tua ausência, ensaiei os meus mais sublimes sentimentos que por ti mantenho. O elo que nos une vacilou na intermitência de não te dominar. Senti-te no meu olfacto, com a ternura de quem procura no ar vestígios de uma presença próxima. Percorri-te com o interesse de uma redescoberta, e quis projectar-me em ti. No meu olhar, estavas contíguo, embora a ambiguidade da visão se confundisse na ira do meu desejo.

O meu verbo sempre se conjugou na tua pessoa. Não quero que o amanhã seja condicional, nem que a tua ausência mirre a minha leveza. Sussurra-me com o teu silêncio, embala-me na tua magnificência para que contigo os meus sonhos sejam sinónimo de desprendimento.

terça-feira, 12 de maio de 2009

PALAVRAS SOLTAS

Qual pétala arrancada pelo vento, qual pólen que esvoaça

Quando já tudo foi dito e o destino parece incerto
Solto-me e sinto-me

O meu eu, o eu que eu procuro
E sempre a incerteza no horizonte
O eu que conheço, o eu que pressinto, o eu que vejo quando a visão se turba


Desprendimento. As palavras sinto-as. Passam as emoções. Solta-se o desejo

segunda-feira, 20 de abril de 2009


Atribuir definições a sentimentos é tarefa ingrata. Traduzir o que corre nas veias e nos sulca a alma; o que nos faz mover, o que nos faz sonhar… Referimo-nos ao amor como gelo, como um icebergue que se afasta da costa e derrete, como que os sentimentos não se possam perpetuar e desapareçam no horizonte.


Hoje, apetecia-me dizer-te que adoro o ardor que me invade quando penso em ti, a volúpia silenciosa de te ver passar, o êxtase de te ver a pulsar…
Ter-te é experimentar o sabor da tua pele, ter no meu corpo o calor suado do nosso amor, o gemido contraído e alienado, o espasmo arrebatador.

E depois? Depois é saber que tu continuas cá. Que sonhamos em uníssono.
Amanhã, vou acordar contigo.
A vida é assim... feita de fragmentos soltos!

segunda-feira, 6 de abril de 2009


Faltam-me as palavras, faltam-me os atributos para ler a tua alma e te justificar na minha Pessoa.

Aconteceste em mim e foste cavalgando na minha vida, a galope.

Contemplo-te em toda a tua plenitude e cinjo-me às emoções que me suscitas.

Decifro-te na tua perfeição, na esperança que um dia também eu esteja em ti.

A tua dádiva é o meu fascínio, os teus sentimentos o meu anseio.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

PRELÚDIO



Amo-te, mesmo quando o nevoeiro irrompe entre nós.
Desapareces e eu penso em ti.

Abraço-te no meu peito, como da primeira e eterna vez que te vi. Aperto-te e viajo no teu calor; Abandono-me à invasão da tua presença e esqueço-me de mim.
Foste prelúdio de algo que em mim cresceu. És caminha inacabada, és ousadia da minha quimera, és desafio titânico que acolho com fervor.
Fecho os olhos e digo – meu amor – e o meu pensamento voa até ti. E eu perco-me no ardor dos teus lábios e na paz do teu Ser.

GRAVE


É em mim que me encontro, meio a fugir, meio a tropeçar,
Nas vielas de calçada pontiaguda e irregular.
Corro, mas não fujo; tropeço, mas não caio; sangro, mas não lanho.

As chibatadas sucedem-se à cadência de um luar intermitente
Por entre uma névoa escura que na montanha corre.
A calçada ecoa nos meus passos e sinto os pés a sulcarem a vida que não vivi.
Aguardo a alvorada ao compasso dos gemidos das pedras que ao frio tremem.